Copa do Mundo:
Festa Macabra
O Brasil, país do futebol, terá o mesmo problema que a África do Sul, país do rúgbi. Aqui, como lá, a festa macabra da Fifa é um sorvedouro implacável de recursos públicos
“Há uma percepção crescente de que a aritmética
da Copa do Mundo é um tanto instável”, escreveu o Times
de Johannesburgo um mês depois do triunfo da Espanha nos campos sul-africanos.
“Temos estádios em excesso para nosso próprio uso. Talvez
devêssemos exportar estádios para o Brasil, que fará
sua Copa do Mundo?” A constatação estava certa; a sugestão,
errada. O Brasil, país do futebol, terá o mesmo problema que
a África do Sul, país do rúgbi. Aqui, como lá,
a festa macabra da Fifa é um sorvedouro implacável de recursos
públicos.
Mafiosos usam a linguagem da máfia. Confrontado com evidências
de corrupção na organização que dirige, Sepp
Blatter avisou que tais “dificuldades” seriam solucionadas “dentro
de nossa família”. As rendas de radiodifusão e marketing
da Fifa ultrapassaram a marca de US$ 4 bilhões no ciclo quadrienal
encerrado com a Copa da África do Sul. O navio pirata já se
moveu para o Brasil, onde a Fifa articula com seus sócios a rapina
seguinte.
O brasileiro João Havelange planejou a globalização
do futebol, expandindo a Copa para 24 seleções, em 1982, e
32, em 1998. Blatter concluiu a transformação, rompendo a
regra de rodízio de sedes entre Europa e América. Como constatou
a Sports Industry Magazine, sob um processo milionário de licitação
do direito de hospedagem, as ofertas nacionais assumiram “a forma
de promessas de mais e mais pródigos novos estádios para os
jogos e novos hotéis luxuosos para uso dos dirigentes da Fifa e de
fãs endinheirados”. A Copa é um roubo: as despesas são
pagas com dinheiro público, de modo que a licitação
“constitui, de fato, um esquema de extração de renda
concebido para separar os contribuintes de seus tributos”.
O saque decorre da conivência de governos em busca de prestígio
e de negociantes em busca de oportunidades. Na Europa, a rapinagem é
circunscrita por uma cultura política menos permeável à
corrupção e pela existência prévia de modernas
infraestruturas hoteleiras, esportivas e de transportes. Por isso a Fifa
seleciona seus próximos alvos segundo critérios oportunistas
de vulnerabilidade. Encaixam-se no perfil a África do Sul e o Brasil,
países emergentes que ambicionam desfilar no círculo central
do mundo, assim como a semiautoritária Rússia, sede de 2018,
e a monarquia absoluta do Qatar, que bateu a Grã-Bretanha na disputa
por 2022.
Antes das Copas, consultores associados às redes mafiosas produzem
radiosas profecias sobre os efeitos econômicos do evento. Depois,
quando emergem os resultados efetivos, eles já estão entregues
à fabricação de ilusões no porto seguinte. A
África do Sul gastou US$ 4,9 bilhões em estádios e
infraestrutura, que gerariam rendas imediatas de US$ 930 milhões
derivadas do afluxo de 450 mil turistas, mas só arrecadou US$ 527
milhões dos 309 mil turistas que de fato entraram no país.
O verdadeiro legado positivo da Copa de 2010 foi a mudança de paradigma
no sistema de transporte público urbano, pela introdução
de ônibus, em corredores dedicados, e também do Gautrain, trem
rápido de conexão com o aeroporto de Johannesburgo. Os ônibus
enfrentavam uma selvagem resistência dos sindicatos de operadores
de peruas, superada pelo imperativo urgente do evento esportivo. O Gautrain
serve exclusivamente à classe média, com meios para adquirir
bilhetes cujos preços excluem a população pobre. Mas
o argumento de que, sem uma Copa, não se realizariam obras necessárias
de mobilidade urbana equivale a uma confissão de incompetência
da elite dirigente.
Eventos esportivos globais tendem a gerar ruínas urbanas mesmo em
países mais inclinados a zelar pelo interesse público. Japoneses
e sul-coreanos ainda subsidiam a manutenção das arenas da
Copa de 2002. As dívidas contraídas para as obras da Olimpíada
de Atenas e da Eurocopa de 2004 aceleraram a marcha rumo à falência
da Grécia e de Portugal. A África do Sul incinerou US$ 2 bilhões
na construção e reforma das dez arenas da Copa. Todas, com
exceção do Soccer City, de Johannesburgo, usado para jogos
de rúgbi e shows, figuram hoje como monumentos inúteis, conservados
pela injeção de dinheiro público. A Cidade do Cabo
paga US$ 4,5 milhões ao ano pela manutenção da arena
de Green Point, erguida ao custo fabuloso de US$ 650 milhões e usado
apenas 12 vezes depois da Copa. Lá, desenrola-se um melancólico
debate sobre a alternativa de demolição do icônico estádio,
emoldurado pela magnífica Table Mountain.
O Brasil decidiu ultrapassar a África do Sul. Aqui serão 12
arenas, a um custo convenientemente incerto, mas bastante superior aos dispêndios
sul-africanos. As futuras ruínas já drenam vultosos recursos
públicos, mal escondidos sob as rubricas de empréstimos do
BNDES e subsídios estaduais e municipais. O governo paulista prometeu
não queimar o dinheiro do povo na festa macabra da Fifa, mas o alcaide
Gilberto Kassab assinou um cheque público de US$ 265 milhões
destinado ao estádio do Corinthians. São 16 centros educacionais,
para 80 mil estudantes, sacrificados por antecipação no altar
de oferendas às máfias da Copa. O gesto de desprezo pelas
necessidades verdadeiras dos contribuintes reproduz iniciativas semelhantes
adotadas, Brasil afora, por governos estaduais e municipais.
De acordo com a lógica perversa do neopatriotismo, a Copa é
um artigo de valor só mensurável sob o prisma da restauração
do “orgulho nacional”. De fato, porém, a condição
prévia para a Copa é a cessão temporária da
soberania nacional à Fifa, que assume funções de governo
interventor por meio do seu Comitê Local. O poder substituto, nomeado
por Blatter, já obteve o compromisso federal de virtual abolição
da lei de licitações e pressiona as autoridades locais pela
revisão das regras de concorrência pública. Malemolentes,
ao som dos acordes de um verde-amarelismo reminiscente da ditadura militar,
cedemos os bens comuns à avidez dos piratas.
Publicado em 23/06/2011 | Demétrio Magnoli e Adriano Lucchesi - Jornal Gazeta do povo
Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br. Adriano Lucchesi é administrador de empresas e mestre em Turismo Sustentável.